Profissional de recursos humanos conversa com colaborador em sala de reunião

Bets, day trade e ludopatia: o que o RH precisa saber

Departamentos de recursos humanos brasileiros começaram a receber, este ano, um tipo de relato que não estava em nenhum manual: funcionários que desaparecem no dia seguinte ao pagamento, pedidos recorrentes de adiantamento salarial, dívidas de milhares de reais, crises familiares. A Associação Brasileira de Recursos Humanos confirma o padrão. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes chegou a produzir uma cartilha para orientar pequenos empresários.

Os números acompanham. Os afastamentos previdenciários por transtorno relacionado ao jogo cresceram quase 60% em 2025, primeiro ano do mercado regulado — de 425 para 679 benefícios. É um volume ainda pequeno diante dos cerca de 4,5 milhões de afastamentos concedidos no período, e vale dizer isso com todas as letras: não estamos diante de uma epidemia que explica sozinha o endividamento das famílias brasileiras. Mas a curva é inequívoca, e ela acompanha um movimento mais amplo: a legislação e a jurisprudência caminham, com atraso, para reconhecer como adoecimento aquilo que por muito tempo foi lido como desvio de conduta. A clínica já sabia disso. As organizações estão sabendo agora.

Diante disso, a reação mais comum das organizações é tratar o assunto como uma questão de conscientização: uma palestra sobre os perigos das apostas, um material informativo, uma roda de conversa. É melhor do que nada. Mas parte de uma premissa que os dados não sustentam — a de que as pessoas apostam por não saberem que apostar é ruim.

Sinais de ludopatia no trabalho: o que o RH vê — e o que não deve concluir

Os sinais relatados pelas entidades são consistentes: queda brusca de desempenho, erros fora do padrão, ausências, isolamento, irritabilidade, saídas frequentes durante o expediente, pedidos repetidos de antecipação de salário.

Nenhum deles é diagnóstico. Afinal, sobrecarga de trabalho, luto, doença na família, conflito com a liderança e uma dúzia de outras situações produzem exatamente o mesmo quadro. A responsabilidade do gestor não é identificar o que a pessoa tem — é observar mudanças concretas no trabalho, conversar com respeito e encaminhar quando houver sinais consistentes de sofrimento ou pedido de ajuda.

Essa fronteira importa mais do que parece. Gestor que tenta diagnosticar erra de dois jeitos: rotula quem não tem nada e constrange quem tem.

No entanto, há um sinal que mudou de lugar e que poucas empresas acompanharam. Até 2025, o trabalhador com carteira assinada que precisava de dinheiro batia na porta do RH: pedia adiantamento, ou pedia autorização para um consignado que dependia de convênio da empresa. O pedido era constrangedor, mas era uma conversa — e conversa é oportunidade de perceber algo. Com o Crédito do Trabalhador, lançado em março de 2025, o consignado passou a ser contratado direto pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital, sem aprovação do RH.

O pedido desapareceu. O desconto, não. Ele continua passando pela folha de pagamento todo mês, agora sem que ninguém tenha conversado com ninguém. Empresas têm relatado aumento de consignado na folha justamente onde antes viam pedidos de adiantamento.

Uma ressalva necessária, e ela vale para tudo neste texto: consignado subindo não é indicador de apostas. A modalidade cresceu de forma expressiva por razões próprias — movimentou dezenas de bilhões e alcançou milhões de trabalhadores desde o lançamento, com juros muito abaixo do cheque especial e do rotativo. Para muita gente foi troca de dívida cara por dívida barata, o que é uma boa decisão financeira. Ou seja, o ponto não é que o número acusa alguma coisa. É que ele é um dos poucos indicadores de saúde financeira que a empresa já tem em mãos, agregado e sem violar a privacidade de ninguém — e quase nunca é olhado.

Bets e day trade não são a mesma coisa — e a diferença muda o que fazer

Bets e day trade costumam aparecer juntos em qualquer texto sobre o assunto, como se fossem a mesma coisa. Clinicamente não são: o transtorno relacionado ao jogo tem classificação própria (CID-11 6C50, CID-10 F63.0); operar no mercado financeiro não é diagnóstico de nada. Mas há um mecanismo comportamental compartilhado — recompensa imprevisível, perda que puxa nova tentativa — e é ele que produz o dano.

Para a empresa, porém, a distinção que mais importa é outra, e é prática:

As apostas tendem a ser visíveis. O dinheiro some em datas identificáveis. O adiantamento é pedido. A ausência acontece depois do pagamento. Há um rastro.

O day trade tende a ser invisível — e elogiado. A pessoa está olhando gráficos no celular, e isso não parece adoecimento: parece interesse por investimentos, iniciativa, sofisticação financeira. Em muitos ambientes é assunto de conversa de corredor e sinal de status. Ninguém pergunta a um colega que acompanha o mercado se ele está dormindo. O sintoma passa porque ele é socialmente bem-avaliado.

Um estudo da FGV EESP encomendado pela CVM, que acompanhou quase vinte mil pessoas que começaram a operar day trade, encontrou algo que deveria interessar a qualquer área de gente: entre os que persistiram por mais de trezentos pregões, a grande maioria teve prejuízo — e o desempenho piorava com o tempo. Os pesquisadores levantam uma hipótese para explicar isso: conforme a perda acumulada cresce, as decisões vão ficando mais equivocadas.

Leia essa frase de novo, porque ela é o ponto do artigo. A perda não corrige o comportamento. Ela o alimenta.

Por que a palestra de conscientização sobre apostas não basta

Se saber bastasse, o número de operadores em prejuízo cairia com a experiência. Cai o oposto. Por isso, aqui está o erro estratégico mais comum das empresas que decidem agir: entregar informação a quem já tem informação.

Isso não significa — e é importante ser preciso — que informação seja inútil. Educação financeira funciona, orçamento funciona, renegociação de dívida funciona, e a maior parte das decisões financeiras de qualquer pessoa é técnica e exige plano. O superendividamento tem instrumentos técnicos concretos, inclusive o mecanismo de autoexclusão previsto na regulação do setor. Nada disso é dispensável.

O que os dados mostram é mais específico: informação sozinha não move comportamento quando o comportamento está cumprindo outra função. E o dinheiro, nesses casos, quase nunca está funcionando como recurso. Está funcionando como recuperação de uma perda, como prova de competência, como fuga de um estado interno que a pessoa não sabe nomear.

Assim, um programa que só informa fala com a parte da pessoa que já concorda. É por isso que o Método Mahout trabalha com a imagem do condutor que caminha ao lado do elefante, e não sobre ele: a intenção racional existe e é legítima, mas ela não decide sozinha. A pergunta que abre o trabalho não é “você sabe que isso te prejudica?” — é “esse dinheiro está funcionando como recurso ou como mensagem?”. A resposta muda a intervenção.

Não é comportamento no lugar da técnica. É comportamento e técnica, na ordem certa.

O que a empresa pode fazer: seis medidas práticas

Separar acolhimento de disciplina. São trilhas diferentes e precisam ser ditas em voz alta. Um funcionário que joga durante o expediente responde por isso; um funcionário adoecido precisa de encaminhamento. A jurisprudência trabalhista tem caminhado exatamente nesse equilíbrio — reconhecer a dependência como doença sem eliminar a responsabilização proporcional.

Olhar o que já está na folha. Margem consignável comprometida, volume de adiantamentos, descontos crescentes — em dado agregado, sem individualizar. Não para vigiar ninguém: para saber se o problema existe antes de ele chegar como afastamento.

Ter canal de encaminhamento pronto antes de precisar. O SUS oferece atendimento pelas UBSs, pelos CAPS e por teleatendimento via Meu SUS Digital. Existem grupos de apoio como os Jogadores Anônimos e serviços especializados como o PRO-AMJO, do Hospital das Clínicas da USP. Um gestor que descobre o problema na quinta-feira e passa a sexta pesquisando no Google já perdeu o tempo que importava.

Treinar liderança para observar, não para diagnosticar. O conteúdo útil para um gestor não é uma aula sobre ludopatia. É: quais mudanças no trabalho justificam uma conversa, como conduzir essa conversa sem constranger, e para onde encaminhar.

Tratar educação financeira como leitura de comportamento, não como aula de orçamento. A planilha continua necessária. Ela só não é suficiente, e a empresa que entrega apenas planilha vai concluir, daqui a um ano, que o programa não funcionou.

Reconhecer que os quadros vêm acompanhados. Estudos com pacientes em tratamento por transtorno do jogo indicam alta frequência de outros transtornos associados — depressão e ansiedade entre os mais comuns. Em situações graves, o sofrimento pode chegar a risco de vida, e entidades sindicais já relataram esses desfechos. Isso não é assunto para o RH resolver. É assunto para o RH encaminhar rápido e bem.

A metade do problema que ninguém sinaliza

O trabalhador que perde o salário numa casa de apostas e o que perde numa corretora estão sendo lidos de formas opostas dentro da mesma empresa. Um é visto como problema. O outro, com frequência, como alguém que “entende de mercado”.

Enquanto a organização enxergar só o primeiro, ela vai tratar metade do que tem.


Maria Manso é planejadora financeira CFP® e psicóloga (CRP 04/48217), criadora do Método Mahout, que integra leitura comportamental e planejamento financeiro técnico em um processo único.


Perguntas frequentes

Ludopatia é considerada doença? Sim. A Organização Mundial da Saúde classifica o transtorno de jogo na CID-11 (código 6C50), e ele também consta da CID-10 como jogo patológico (F63.0). O diagnóstico é feito por profissional habilitado, preferencialmente médico psiquiatra, e pode ser complementado por avaliação psicológica.

Funcionário que aposta durante o expediente pode ser demitido por justa causa? A questão está em discussão. A orientação jurídica majoritária é que o vício em si não fundamenta justa causa, mas condutas específicas podem — jogar durante o expediente, atrasos recorrentes, queda de produtividade vinculada às apostas, desvio de valores. Quando há diagnóstico e a empresa tem ciência dele, tribunais regionais têm revertido dispensas. É assunto para a assessoria jurídica da empresa, não para o gestor decidir sozinho.

Quais são os sinais de ludopatia no trabalho? Ausências após o dia do pagamento, queda brusca de desempenho, erros fora do padrão, irritabilidade, isolamento, saídas frequentes durante o expediente e pedidos repetidos de antecipação de salário. Nenhum deles é diagnóstico — todos aparecem também em sobrecarga, luto, doença na família e conflito com a liderança.

Onde encaminhar um colaborador que pede ajuda? O SUS atende pelas UBSs, pelos CAPS e por teleatendimento acessível no Meu SUS Digital. Há também grupos de apoio como os Jogadores Anônimos e serviços especializados como o PRO-AMJO, do Hospital das Clínicas da USP. Vale ainda verificar a cobertura do plano de saúde da empresa — muitos colaboradores não sabem que têm direito a tratamento.

Day trade compulsivo é a mesma coisa que ludopatia? Não. Operar no mercado financeiro não constitui diagnóstico. Mas o mecanismo comportamental é próximo — recompensa imprevisível e perda que puxa nova tentativa — e o padrão tende a ser menos visível dentro da empresa, porque costuma ser lido como interesse por investimentos.


Se a sua empresa está estruturando um programa de saúde financeira, ou se você quer entender como leitura comportamental e planejamento técnico se integram na prática, conheça o Método Mahout ou receba o Guia Hexaflex Financeiro.


Fontes

  • Folha de S.Paulo, agosto de 2026 — reportagem sobre os efeitos do adoecimento por apostas no ambiente de trabalho (relatos ABRH e Abrasel). https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/adoecimento-por-bets-afeta-empresas-com-faltas-funcionarios-endividados-e-pedidos-de-adiantamento.shtml
  • INSS / Ministério da Previdência — afastamentos por transtorno relacionado ao jogo, 2024–2025
  • Chague, F. e Giovannetti, B. — FGV EESP, estudo sobre day trade encomendado pela CVM
  • Confederação Nacional do Comércio (CNC) — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor
  • Organização Mundial da Saúde — CID-11, transtorno de jogo (6C50)
  • Consultor Jurídico e Migalhas — análises sobre o tratamento jurídico da ludopatia nas relações de trabalho
  • Ministério do Trabalho e Emprego — Crédito do Trabalhador (consignado CLT), a partir de março de 2025